Nota de apoio à greve estudantil e às ocupações

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“Quando a tirania é lei, ocupação é ordem”

No dia 03 de novembro de 2016, mais de mil e quinhentos estudantes da Universidade Federal do Ceará lotaram a Concha Acústica numa demonstração de força e coragem para enfrentar o desmonte da educação pública, proposto pelo governo ilegítimo de Michel Temer através da PEC 241 (agora PEC 55 no Senado), da Reforma do Ensino Médio e da Lei da Mordaça. Naquele dia, estávamos, alguns professores, como espectadores e nos aglomeramos nas arquibancadas, animados com a diversidade de perspectivas apresentadas pelos jovens que discursavam. Aplaudimos e admiramos as convicções ali demonstradas.
A estratégia definida na Assembleia Geral Estudantil foi entrar em greve e ocupar a UFC. Já são hoje mais de 30 cursos de graduação e pós-graduação ocupados pelos estudantes, num grande desafio a ser enfrentado pela juventude. Após dez dias, o movimento só se fortalece e expõe a necessidade de nós, professores, assumirmos o papel de apoiadores ativos e envolvidos. Neste cenário, são os estudantes a nos proporem um novo conhecimento. Com certeza, a palavra ocupação assume um significado novo, desde que os secundaristas de São Paulo utilizaram essa estratégia para cobrar um posicionamento da Câmara Legislativa daquele estado diante da CPI da máfia da merenda escolar. Quando os poderes se negam a ouvir os clamores daqueles que dizem representar, quando lhes negam direitos e silenciam a voz, que resta fazer? Ocupar. “Nada para nós, sem nós”. Este é o limite que os estudantes vêm opondo ao autoritarismo e ao arbítrio. Este é o lema, cuja realização concreta implica um novo tipo de democracia.
Ocupar é verbo de ação, de enfrentamento e, sobretudo, de ressignificação do espaço. Já desde o início, ele problematiza o vocabulário, torna obsoleto o léxico usual, midiático, amigo da opressão, que tacha de “baderna” e “invasão” as manifestações legítimas da insatisfação e da participação popular.
Até porque, ao contrário de tais sentidos negativos, as ocupações redefiniram uma concepção cultural muito deletéria no Brasil, a de que o público é de ninguém ou é “do governo”. As ocupações nas escolas construíram a compreensão e o sentimento de que o público é da coletividade. O resultado foi que nunca se viu tanto zelo pela coisa pública como naquelas escolas. E foram mais longe. Subvertendo a visão paternalista e behaviorista de que seria preciso facilitar e oferecer parafernálias novas aos estudantes para estimulá-los, elas mostraram o liame indissociável entre interesse e participação, redesenharam currículos com base numa educação libertadora e ressignificaram os conteúdos em novas linguagens.
Com muito compromisso e senso de urgência, os estudantes da UFC resistem aos retrocessos. Eles reivindicam universidade pública para todos e desejam também uma instituição internamente democrática, mais permeável ao protagonismo estudantil, aberta a novos currículos e novas metodologias. E já ensaiam essas novidades. Antes de utilizar um arcabouço teórico e defender uma tradição, querem saber se servem à libertação ou à opressão. As discussões circulam de forma democrática, participativa e qualificada e propõem muitos e variados aprendizados. Também os inúmeros cartazes espalhados pelas ocupações não são silenciosos. Gritam frases e palavras caras a quem pensa, mas uma frase especificamente explica o sentido da ocupação: “Quando a tirania é lei, ocupação é ordem”.
Diante da perspectiva do congelamento dos investimentos públicos em educação, saúde e outros direitos essenciais no Brasil, pelos vintes anos que serão decisivos em suas vidas e em sua geração, os estudantes se organizam corajosamente para estar à altura de um desafio histórico. Nós, professores, somos agora chamados a apoiá-los e a lutar com eles. Nossa resposta dirá ao futuro quem nós somos.

Todo apoio à greve dos estudantes! Todo apoio às ocupações!
Fortaleza, 17 de novembro de 2016

Coletivo Graúna
Professores por uma educação democrática

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