Homenagem ao prof. José Albuquerque Rocha, da Faculdade de Direito da UFC

Por Newton Albuquerque (Faculdade de Direito – UFC)

O peso da ausência de pessoas queridas, amadas, desafia essa matéria etérea do tempo, pois o tempo parece estar gravado em nós. Contudo, torna-se ainda mais pronunciado quando além da perda privada de nosso amigo, mestre, a ausência presente ultrapassa-nos, atingindo muito além dos integrantes do círculo íntimo de familiares, amigos.  Afinal, Rochinha era daqueles “repúblicos”, que buscavam motivação naquilo que os gregos chamavam de vida comum, notadamente em relação a vida e destino dos trabalhadores, dos desprovidos, dos proletários. Mesmo que não saibam muitos anônimos, padeiros, operários, sem-terra, faxineiros, subalternizados em geral, estes foram a matéria-prima de sua usina de ideias e ideais, de suas problematizações, de suas utopias concretas. De onde tirava motivação, para como um Dom Quixote visionário arrostar moinhos e gigantes, com destemor, bravura e palavra armada. Lancinava a verborragia fácil de certos juristas, investia contra os covardes, denunciava, se preciso, a sinecura, o concurso fraudado, as intenções canalhas. Não gostava de puxa-sacos, nem de liturgias hipócritas. Gostava do bom, dos conteúdos e formas da boa e autêntica vida, da prosa arguta, dos fundamentos das coisas, incluindo a graça feminina… Admirava-o, acima de tudo, pela capacidade incomum de ser contemporâneo na contemporaneidade, sem perder seus elos, sua história, mas sem saudosismos, de quem tem a vida sob o ponto de vista do retrovisor. A distância da idade, não obstante sua cultura e experiência, relativiza-se, não o impedia de ver o mundo com a perspectiva inquieta, atenta, diria filosófica, de quem o vê pela primeira vez.

Faz 6 anos que partiu, mas ainda vejo-me a telefonar-lhe, proseando sobre um espectro de temas os mais variados, da conjuntura às estruturas, das agruras do cotidiano ao vinho e suas nuances, da França à sua Quixada, terra de seu pai, mães, irmãos, também de Teresa, irmã querida e alma gêmea, eletiva… Dos clássicos aos seus netos diletos, da filha, das boas e más comidas, da tilápia, das histórias em Sobral, etc. e tal. Tantas conversas, papos que parecem continuar, reverberar, como se ouvisse sua voz, suas observações inteligentes, ágeis, incisivas. Que falta  faz o seu verbo ativo, sua inteligência analítica e corajosa  diante nossa débil esfera pública. E que se agrava diante da degradação da “Sociedade do Espetáculo” em nosso país , da narrativa farsesca de um golpe urdido do conúbio entre cúpulas judiciais, mídia empresarial e cleptocracia parlamentar subjugando nossa gente, degradando-nos. Particularmente, em relação ao judiciário, hierarquizado, dogmatizado, impermeabilizado socialmente em seus vértices burocráticos, tão imunes ao escrutínio da razão crítica. Um poder cupular resiliente a secularização, preso a uma legitimação “teológica”, antipolítica, avessa a justificação de seus atos e decisões, ao olhar mundano do homem comum.

Como precisamos de um Rocha, para enfrentarmos essa travessia de mentiras, de manipulações moralistas, de ideologias de toga a serviço da grana, da alta sociedade, dos convescotes de salão dos donos do poder! Quantas vezes lembro-me de suas admoestações sobre o preço que a democracia e a esquerda nativas pagariam pela insuficiência de sua compreensão do poder judiciário, de sua centralidade na lógica da produção e reprodução do poder,  de seus nexos com a sociedade civil, de suas clivagens internas? Palavras, advertências, afetos e exemplos que se enraizaram, influenciaram gerações, despertaram respeito, mesmo ao mais desleal inimigo. Como se enraiza também  a saudade, da conversa não finda, do vinho a compartilhar… Fica, no entanto, o lenitivo da lembrança afetuosa, da inspiração moral frequente, do retrato vivo na memória . Rochinha, presente!

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