Os Troféus da República

Profa. Maria Inês Cardoso – Letras (UFC)

Canudos, cidadela perdida no Nordeste baiano, afogada pelas águas do Vaza Barris, represadas ali no final dos sessenta, pela ditadura militar, segue perseverante e obstinadamente emergindo ao longo do tempo. Essa “fantasmagoria” histórica vira já a curva de dois séculos, na pena de escritores e nas mãos de artistas que se voltaram àquele episódio de um povo infeliz cujo ousado sonho de vida mais justa esbarrou num não querer alheio. Esse mesmo não querer que teima, um século depois, em manter a história no curso conveniente. Canudos foi a vida que ainda não era para ser.

Desse projeto social, ou bonita utopia milenarista-sebastianista, de Belo Monte, havia muito o que contar. Que o diga Euclides da Cunha! Testemunho assombrado dos momentos finais do povoado, ele inscreve a história Canudos no parasempre da grande literatura. Só assim o massacre dos humildes de Belo Monte corre o mundo. Mas, porque de gente do povo tratava essa história, a tragédia de Conselheiro e de seu povo ecoou, em primeira mão, na voz de cantadores e nas páginas de cordéis, sertão adentro e litoral afora.

Fascinado e inteiramente seduzido por aquele grande pintor de imagens que foi Euclides, Descartes Gadelha, esse cearense, gigante talentoso das artes plásticas, manteve com Os sertões um diálogo intenso, ao longo de pelo menos três décadas. Nunca alheio ao movimento popular e seus clamores, também por isso escolheu Canudos, num intento de fazê-la emergir daquele pardo Cocorobó, que, na verdade, nunca conseguiu contê-la. Como portal amplo, o “livro vingador” ofereceu-se aos olhos sensíveis e às mãos talentosas do artista, cuja fina percepção erigiu uma resposta plástica à altura. Uma obra que, apesar da força retórica de Euclides, não se limitou à subserviência ilustrativa, razão pela qual se batizou “Cicatrizes submersas”.

A Terra, O Homem e A Luta, flagrados em toda a densidade do discurso euclidiano, encontraram guarida nas telas de Descartes. Nelas, ora dramática, ora pungente, ou imersa em um lirismo comovedor, renasceu a utopia de Belo Monte. Mas quando o artista, comovido, surpreende a devoção, em serpenteantes procissões alumbradas por velas e candeeiros, dos canudenses no exercício de sua fé – único caminho de esperança que conheciam –, ele opta pelo bronze e pela milenária técnica de cera perdida. Perdidas, ele sabia, também as esperanças, estas, mais do que nunca devem ter o peso que lhes é devido, a tela e a tinta ainda são matérias de pouca monta, quando de um bem, de tão longa duração se trate. Perenidade é a matéria de que a fé é feita.

De nada descuida Descartes Gadelha. Sua Cicatrizes submersas, doada ao MAUC, uma de suas muitas casas, tem lá sala sua, onde reunida oferece-se ao público. Oferta-se em troca de pouco (como costuma ser com as verdadeiras obras de arte), pretende apenas cravar-se, retina adentro, na consciência de cada um de nós, seu público, consubstanciando-se: novo diálogo.

Dele, aprendemos que através da arte histórias como a de Canudos ressuscitam, fora da arte, elas apenas se repetem. O tempo não é linear, Descartes Gadelha sabe disso, ao antecipar, muitos anos atrás, em Cicatrizes e, em especial, em seu “Troféu da República” (1990), a mais triste constatação que fazemos agora: Canudos somos todos nós. Como promessas pagas, antecipadamente, nos vemos, outra vez, cabeças ex-votos, servidas em bandeja nesse banquete cruel de uma insaciável república forjada por alguns poucos.

Untitled

Porque Descartes Gadelha não podia pintar melhor o dia de hoje (e haja faixas da República!):

Tela: Troféu da República de Descartes Gadelha (série Cicatrizes submersas – MAUC)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Porque Descartes Gadelha não podia pintar melhor o dia de hoje (e haja faixas da República!):
Tela: Troféu da República de Descartes Gadelha (série Cicatrizes submersas – MAUC)

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