Os bestializados do golpe

Prof. Marcelo Peloggio – Letras (UFC)

Nossos bestializados jamais constituíram uma farsa coletiva; eles designam a mais pura tragédia. Porque a farsa traz consigo um ar de abstração; eles, pelo contrário, são bastante concretos, feitos de carne e osso, e encarnam, perfeitamente, a realidade trágica do momento atual. Nos restaurantes, nos bares, nas universidades, nas repartições fala-se de tudo: de cerveja artesanal, do colega do trabalho, de namoro, horóscopo… golpe mesmo… nada! Nada está acontecendo! A tragédia está dada. Ou melhor, nunca saímos da tragédia porque não chegamos a tê-la de fato…

No decorrer de nossa história, é fato, faltou-nos aquilo que muitos países conheceram: a tragédia mesma (ou melhor, a revolução). Não me refiro apenas à ideia de luta armada, algo que não é descartado, mas ao que é mais premente – a revolução dos costumes, que, em muitos pontos, prescinde da primeira.

Ora, só há farsa quando o nível de consciência histórica atinge um grau de sofisticação e profundidade capaz mesmo de detectá-la e então freá-la tão logo ela – a farsa – se ponha. Daí que o impedimento da presidenta Dilma Rousseff, por exemplo, não pode ser conhecido como o que de fato é: uma grande máscara sordidamente edificada, que disfarça as reais intenções das forças reativas. A tragédia reside justamente aí: em não atentar para esse disfarce da farsa, que, no caso brasileiro, é trágico, porque é pouco e pouco naturalizado.     

Que possamos também aprender com as formas contemporâneas de luta (que são os meios efetivos de produção material e de sentido), e assim, quem sabe, lançar as bases para a consolidação de uma nova esquerda de orientação libertária. A esquerda tradicional acha-se em total descompasso ante as determinações da época atual, ou antes, das forças produtivas em ascensão. O conceito abstrato de “luta de classes” deve ceder lugar a uma noção mais concreta, que chamamos “coletivos em luta”: negros, mulheres, LGBTs, ecologistas, liberais, estudantes secundaristas (forças de ocupação em sua efetividade) etc., cada qual defendendo seus interesses mais lídimos e tendo como inimigo comum o capital financeiro em aliança sórdida com a direita fascista (política e religiosa).

Oxalá e o conceito de “tomada de consciência” (viabilizado agora pelos coletivos em luta) seja a personificação mesma desta palavra, que é nova: empoderamento. Será por meio desta via que haveremos de consolidar o mais importante desideratum: suplantar a tragédia para o reconhecimento antecipado das farsas.

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