Dr. Fantástico: uma mensagem de 1964 para hoje

Prof. Paulo Carvalho – Engenharia Elétrica (UFC)

Relembremos uma obra prima do cinema: Dr. Fantástico, filme de 1964 com o título original: Dr. Strangelove or : How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb. O elenco tem à frente o ator britânico Peter Sellers (1925 – 1980), cuja participação neste filme lhe rendeu a indicação para concorrer ao Oscar de melhor ator; atuou em três papéis: o Capitão Lionel Mandrake, o Presidente dos EUA Merkin Muffley e o próprio Dr. Fantástico. Destaque para o personagem título do filme, uma satírica alusão ao engenheiro alemão Wernher von Braun (1912 – 1977), uma das figuras principais no desenvolvimento de foguetes na Alemanha Nazista e que após o fim da II Guerra Mundial se naturalizou cidadão dos EUA. A direção está nas mãos do genial Stanley Kubrick (1928 – 1999), imortalizado por outras joias do cinema como 2001: Uma Odisséia no Espaço e Laranja Mecânica.

A estória se inicia quando um general americano acredita que os soviéticos estão na iminência de um atentado aos Estados Unidos e resolve, se antecipando ao ataque, comandar uma ofensiva nuclear à URSS, visando eliminar de vez o perigo comunista do mundo. Como a estória se desenrola no contexto da chamada Guerra Fria, uma primeira análise poderia levar à conclusão de que se trata de uma obra ultrapassada pela dinâmica dos fatos, o que é um equívoco. Na verdade, o filme aborda um tema (lamentavelmente) extremamente atual e tão antigo quanto a própria humanidade: a lógica da guerra, o sentido da destruição do ser humano pelo próprio ser humano. No caso do “Dr. Fantástico”, o debate é levado a um nível extremo: o desenvolvimento tecnológico leva ao desenvolvimento da arma das armas, a bomba final que leva o ser humano para a lista de espécies extintas do planeta.

Temos aí outro ponto fantástico (aproveitando o título do filme) para reflexão: desenvolvimento tecnológico para quê? Para quem? O planejamento e efetivação de armas de destruição em massa (ou mesmo de eliminação de um único indivíduo) pode ser classificada como avanço tecnológico? A humanidade tem se elevado moralmente no mesmo ritmo das conquistas técnicas? Lamentavelmente, “Dr. Fantástico” encerra a narrativa com o fim da humanidade, na hecatombe final com armas nucleares. Como comprovação da insanidade do apocalipse atômico, o paralítico (e sempre nazista) Dr. Fantástico consegue se levantar de sua cadeira de rodas nos momentos derradeiros e afirma: “Mein Führer, estou andando!” em substituição ao clássico “Meu Deus, estou andando!”.

Outro aspecto que prova a atualidade do filme: os debates finais ocorrem em um abrigo subterrâneo, onde militares e políticos do alto escalão dos EUA se protegem da ameaça nuclear. Pois bem: em recente matéria publicada pelo jornal O Globo, se mostra que o fim do mundo não será o mesmo para 34 famílias de milionários. Estas famílias já compraram seu espaço em um bunker cinco estrelas, construído pela empresa Vivos em Rothenstein (Alemanha). Observação da reportagem: a companhia está recebendo a inscrição de interessados no projeto! A instalação de US$ 1 bilhão terá piscinas, salas de ginástica, área para jardinagem e salas de cinema; tudo pensado para que os milionários não fiquem entediados com o fim dos tempos!

Antes de passar uma mensagem negativa e deprimente, “Dr. Fantástico” deve ser visto como um lembrete: ainda temos tempo de salvar o Planeta! Se não for destinado às gerações atuais viverem em um mundo sem guerras, que pelo menos tenhamos a competência de lançar as sementes no solo para a germinação deste mundo.

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