Carta aos jovens pretendentes ao magistério superior

Prof. João Bosco Furtado Arruda – Engenheiro Civil e Professor Titular do Departamento de Engenharia de Produção (UFC)

É consenso universal que a profissão de professor, em todos os seus níveis, é por demais nobre por exigir vocação, sacrifício e sabedoria – não só do que se ensina, mas das coisas da Vida – daí suscitar a humildade dos sábios, sempre necessária para iluminar caminhos dos mais jovens (mais ignorantes?) que buscam elevar-se pelo aprendizado.

Não obstante, é uma profissão desvalorizada nos sistemas sócio-políticos autocráticos e no sistema capitalista, o que se reflete normalmente na baixa remuneração que lhe oferece o “mercado”. Sim, mas por que isto é assim?

Porque a educação pode e deve ser libertadora, no sentido de liberdade conforme definida pelo grande psicanalista e escritor estadunidense Rollo May: “Liberdade é a capacidade que cada um de nós tem de contribuir para nossa própria evolução”[1]. Então, a educação pode e deve ser (r)evolucionária, constituindo uma ameaça à sustentabilidade dos sistemas anti-humanistas de poder. Um ser humano alienado[2] é o pilar dos sistemas sociais autocráticos ou injustos.

Quem deseja e busca aprofundar-se nos conhecimentos científicos (e suas consequências, os conhecimentos tecnológicos) deve saber que a maturidade nascida do tempo da autoconsciência traz com ela, inevitavelmente, a chamada humildade científica.

Após quarenta e dois anos de experiência no magistério superior, convivi com colegas os quais poderia enquadrar em uma das três categorias:

1) Professor-educador: aquele que ensina com paixão e compaixão; esta última considero o grande atributo-conquista do processo civilizatório da espécie humana, cujo resumo-lema é “não faças aos outros o que não queres que façam a ti“. A maturidade do professor-educador o faz perceber o quantum de ignorância ele tem da matéria que leciona e costuma incentivar e aprender com os alunos, cujo quantum de ignorância está (muito?) distanciado do seu;

2) Professor-lecionador: costuma seguir um livro-texto, normalmente reproduzindo quase ipsis litteris os conhecimentos do livro aos alunos, em um verdadeiro insulto à inteligência destes; dependendo do grau de autoestima e solidez do conhecimento ensinado pode ou não interagir com os alunos de forma aberta e polida;

3) Anti-professor: o oposto do professor-educador, normalmente indivíduo sem lastro acadêmico, inseguro e que busca o magistério ou por necessidade financeira ou por valorização curricular; trata mal os alunos, utilizando de forma inapropriada o poder inerente à relação professor-aluno e, muitas vezes, se compraz em rebaixar a autoestima daqueles, penalizando-os injustamente ou desestimulando – via sarcasmo/ironia ou crítica destrutiva – dúvidas e questionamentos em sala de aula.

Assim, penso que, para atingir objetivos libertários e orgulhar-se, no futuro, da trajetória construída no magistério superior, os aspirantes à docência devem evitar enquadrar-se nas duas últimas categorias e nortear seu comportamento por, pelo menos, dez princípios, a saber:

1) Todo docente deve esforçar-se para ombrear ao melhor professor que teve na sua vida ou para ser o professor que gostaria de ter tido;

2) Deve-se cuidar para não rebaixar a autoestima do aluno ao examiná-lo em uma avaliação acadêmica;

3) Não se deve usar dois pesos e duas medidas na avaliação dos discentes, independentemente da simpatia ou antipatia que podemos ter por eles;

4) Antes de finalizar uma avaliação, deve-se considerar o histórico de desempenho do aluno no curso e no semestre letivo; se o desempenho dele na disciplina destoar muito do desempenho geral alguma coisa está errada e o docente pode ter culpa nisso;

5) Nunca se deve menosprezar um aluno por uma pergunta feita; a curiosidade e a dúvida são os motores da libertação e do conhecimento humanos;

6) Nunca se deve dizer frases desestimuladoras em sala de aula, tais como: “eu gosto de ensinar, mas não gosto de alunos”; “é fácil lecionar, o problema são os alunos” etc.;

7) Deve-se analisar atentamente a avaliação do docente pelos seus discentes: é uma oportunidade de feedback indispensável no mundo acadêmico, desde que se desconsidere os pontos de avaliação que se destacam além do 2º desvio padrão;

8) Se um docente reprova mais de 20% de uma turma há grande probabilidade do problema estar no método de ensino, na baixa empatia entre docente e alunos, ou em ambos, e não nos alunos. Um dos princípios basilares da boa pedagogia é que “o docente deve se ajustar à turma e não o contrário”;

9) É muito fácil reprovar um avaliado. Até Einstein foi reprovado por um professor de matemática. Assim, não se deve usar o poder do julgador para amplificar erros cometidos pelos alunos; como escreveu o grande advogado e ensaísta-poeta estadunidense Henry David Thoreau (1817-1862): “Aquele que procurar erros descobri-los-á até no Paraíso”;

10) Todo docente deve lembrar-se que uma reprovação pode ter consequências irrecuperáveis em aumento do tempo de formação do aluno ou que ele pode perder o sonho de graduar-se e ascender socialmente pelo estudo (no caso dos alunos pobres que dependem do FIES[3]).

Não é incomum observar no magistério superior atitudes de transferência para os alunos de frustrações pessoais por docentes prisioneiros de sua própria condição. Lembremo-nos que só um individuo prisioneiro da própria alienação pode ser movido ou manipulado por elogios enfáticos ou por frustrações pessoais não enfrentadas corajosamente.

Finalmente, sabemos que cada ser humano tem suas idiossincrasias e são poucos os que tem efetivamente vocação para o magistério. Isto não é nenhum demérito. Cada pessoa pode realizar-se em muitas nobres atividades profissionais, devendo escolher aquela que lhe dá realmente prazer, sem o qual há forte probabilidade de se ser incompetente profissionalmente[4].

[1] MAY, Rollo. O homem à procura de si mesmo. Ed. Petrópolis: Vozes Ltda., 1978.

[2] Karl Marx (1818-1883) definiu um indivíduo alienado como aquele que, em lugar de sujeito, é mero objeto da própria história.

[3] O Fundo de Financiamento Estudantil (FIES) é um programa do Ministério da Educação destinado a financiar a graduação na educação superior de estudantes matriculados em cursos superiores de instituições não públicas. Pelas regras do FIES, duas reprovações fazem o aluno perder a bolsa.

[4] Ver o livro: Roberto Freire. Sem tesão não há solução . Ed. Novo Paradigma. 2004.

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