O retorno do reprimido: questão sindical

Prof. Mário Martins – História (UFC)

Nas minhas aventuras sobre a psicanálise, aprendi com o historiador-psicanalista Peter Gay que o recalque era peça fundamental na formação do inconsciente e que tendia a se manifestar em situações inusitadas, imprevistas. Ele explica que o que foi reprimido pode voltar, por exemplo, tal como voltam os subversivos na calada da noite de um regime ditatorial tentando romper as barreiras do controle com os seus coquetéis molotov.

Pois bem, ontem eu vi a manifestação daquilo que foi reprimido há sete meses. No dia 7 de outubro de 2015 tinha fim a greve da Universidade Federal do Ceará. A proposta da diretoria do Sindicato dos Docentes das Universidades Federais do Estado do Ceará (ADUFC) foi vitoriosa por uma diferença de aproximadamente três dezenas de voto. O decreto era este: sair da greve isoladamente (apenas alguns dias antes do indicativo de saída do Comando Nacional de Greve), desconsiderando a unidade construída com mais de 40 universidades. A justificativa? A de que a nova diretoria, diferentemente da anterior, havia conseguido a “carta sindical” para a ADUFC, isto é, teria tornado a ADUFC independente, afirmando que o sindicato não era uma seção sindical do ANDES.

Na fatídica Assembleia Geral (AG) essa justificativa foi ovacionada. Entretanto, apenas trinta e oito dias depois (18 de novembro de 2015) o governo enviava a mensagem do acordo para que os sindicatos discutissem com suas bases. Ao invés disso, a diretoria da ADUFC pediu, no dia 20 de novembro de 2015, que os professores, caso “quisessem participar do processo”, votassem no site da PROIFES-Federação. Não houve discussão, não houve reunião do Conselho de Representantes, não houve AG! De posse da carta sindical com que a ADUFC afirma sua independência em relação às duas entidades nacionais (ANDES e PROIFES), o sindicato não só se esquivou do debate com os docentes, como indicou uma votação online no site da PROIFES. Anteriormente à greve, havia sido decidida em AG, por ampla maioria, a desfiliação da ADUFC em relação à PROIFES, cessando o recolhimento para esta entidade dos milhares de reais mensais; durante a greve, em três AG’s diferentes, os professores haviam negado o envio de representantes para a Federação.

Ainda assim, isto é, à revelia da decisão majoritária dos docentes reunidos em Assembleia, a diretoria não apenas cuidou de manter a aproximação da ADUFC com a PROIFES como a ampliou. As idas e vindas dos membros da Federação para o Ceará mostram isso. Na última semana, foi promovido um majestoso evento realizado pelo sindicato em parceria com a Federação em um dos hotéis da Beira-Mar fortalezense. O tema do evento era educação, embora eu desconheça se houve convite à participação de colegas da Faculdade de Educação da UFC, bem como se havia uma preocupação mais específica com a educação do nosso Estado, haja vista, concomitantemente, estarem acontecendo a greve das escolas da Rede Estadual, a ocupação destas escolas por parte dos estudantes secundaristas e a greve da Universidade Estadual do Cará (UECE). Esperemos para analisar a prestação de contas do evento e comparemos com o seguinte: no mês passado, a III Jornada Universitária em Defesa da Reforma Agrária, realizada pelo Curso de História da UFC, contou com o apoio da ADUFC apenas para impressão de algumas dezenas de cartazes.

Mas voltemos ao dia de ontem, 10 de maio de 2016. Enfim, após sete meses da fatídica AG de 7 de outubro de 2015, tivemos uma nova assembleia, mas apenas depois de o Conselho de Representantes ter se autoconvocado e assinalado a urgência de discussão de vários temas com a categoria. A diretoria havia se comprometido a convocar o Conselho logo após o término da greve; uma das questões a resolver era a segunda rodada de eleição para conselheiros, a fim de completar o número de componentes previsto pelo Estatuto. O calendário para a eleição só foi estabelecido agora, com um ano de atraso (ou seja, metade dos dois anos de validade do mandato dos conselheiros eleitos).

Na AG de ontem foram feitos encaminhamentos que assinalam (1) a preocupação e o repúdio dos docentes em relação ao Golpe à democracia em curso no país, (2) o apoio aos estudantes e professores da rede pública estadual e (3) apoio a cassação de Jair Bolsonaro. Nenhum desses encaminhamentos foi proposto ou encabeçado pela diretoria da ADUFC. Aliás, a preocupação atual da diretoria com a ampliação do estacionamento da sede para “agregar valor ao patrimônio” do sindicato mostra bem o sentido dessa gestão. Nada mais simbólico do que um estacionamento, local destinado para que as coisas fiquem estacionadas, para representar um de seus maiores ganhos.

Por fim, ressalto que as falas proferidas ontem por parte dos membros da diretoria aludiam à necessidade de unidade para construir a luta diante do cenário horroroso que se apresenta com o afastamento da presidenta. Nesse sentido, é bom lembrarmos que foi justamente a unidade com outras 40 universidades que foi negada e rechaçada pela diretoria na AG que decretou a saída da greve de forma isolada.

A unidade reprimida e recalcada retornou hoje nos discursos cuidadosos e nos sorrisos amarelos, mas os atos falhos expressos em uma ou outra fala mostraram bem as nuanças dessa unidade. Tem dúvidas? Entre no site da PROIFES e da ADUFC e compare as notícias, as chamadas e até as cores das home page.

A democracia sofre mais um duro golpe. É necessário nos unirmos para avançarmos. Não há dúvidas. Mas quais serão os termos dessa unidade? É melhor que a tratemos de maneira consciente agora, para não sermos perturbados com o retorno daquilo que foi recalcado mais tarde.

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